quinta-feira, 29 de março de 2007

SOTURNO

Soturno,
Vago à noite, sem rumo.
Notívago,
Vampiro das alegrias alheias,
Alcanço
O nada e me esvazio
Enquanto se esvai a alma,
A calma...
A palma da mão dá início
À palavra morte.

Soturno,
Vago à noite, sem rumo.
Disco avoado
Em rota de autocolisão.
Um deus sem anjos,
Coliseu sem lutas;
A felicidade é uma puta
Que eu não posso pagar.
Apago a lua com minhas lágrimas,
Bebo meu sal e minha cachaça.
Um bufão tristonho,
Um histrião sem graça.

E, só de pirraça,
Soturno,
Vago à noite, sem rumo.

O HOMEM (in bestia corpore transmuto) *

Apesar da profunda escuridão daquele pátio, ele sabia a exata distância que o separava dela. Apurando narinas e ouvidos, podia identificá-la como se estivesse em pleno sol de meio-dia. Esta capacidade de apurar os sentidos, havia sido desenvolvida com o passar dos anos e com a necessidade.
Num passado distante, mas atual na memória, não precisava preocupar-se com nada. A vida era tranqüila; seus rendimentos proporcionavam conforto, festas, viagens. Estava sempre cercado de gente bonita e sorridente. Foi nesse meio que ele a conheceu e se apaixonou tão perdidamente que acabou amando-a.
Namoraram por dois anos, noivaram uns poucos meses e casaram numa cerimônia digna de um afresco cistino. Viviam como se cada dia fosse o último e eterno. Óbvio que esta união merecia frutificar. E ela engravidou. Nove meses de carinhos, ansiedade, companheirismo...
Nasceu uma linda garotinha. Os olhinhos tinham o mesmo e intenso brilho dos da mãe. A pequenina crescia em tamanho e formosura. Ele exultava, explodia de felicidade. Conhecia-as pelo cheiro, pelos sons, pelo ritmo dos passos. Sabia das suas mulheres mais que de si mesmo.
Quando se ausentava por algumas horas, voltava para casa com uma saudade infinita. Beijos, abraços, carinhos e afagos não cessavam entre os três. Ele sabia: era feliz, na mais profunda acepção do sentimento.
Cada dia era realmente novo. Elas estavam sempre o surpreendendo. A sua menina grande, o seu amor pequenino. Nunca havia rotina, monotonia. Vivê-las era nascer a cada manhã; sonhar em paz a cada noite.
Agora ele estava ali, atento, na escuridão do pátio, localizando-a com exatidão. A seguraria com ambas as mãos e aproximaria a boca lenta e precisamente. Ela já era dele, mesmo antes de tocá-la.
Há muitos anos, junto com suas amadas, ele era um homem que sorria com a força de um Deus. Até que um dia, voltando de viagem, reconheceu, carbonizado, na estrada, o carro que levaria, de surpresa, suas meninas ao seu encontro.
Desde então, não mais sorriu, falou, amou, viveu. Abandonou a vida, a cidade, as pessoas. Morto, respirava a dor, a saudade e a descrença. Sobrevivia de restos, de lixo, de qualquer coisa sem dono.
Neste momento, apenas ela o interessava. Aproximou-se com a lentidão da espera de quem sofre, com o silencio da dor de quem já amou e a determinação de um kamikaze. Já podia divisar seus olhinhos brilhando no breu. Mesmo que ela o visse agora, não teria como se desvencilhar.
Prendeu a respiração, retesou os músculos e, como bicho que se transformara, agarrou-a vigorosamente com as mãos calosas, a ponto de cortar-lhe as carnes com suas unhas imundas. Agora ela lhe pertencia. De um só movimento, lançou-lhe a boca e a mordeu no pescoço, sentindo o calor do seu sangue inundar sua boca.
Há muitos dias não sentia algo quente nos lábios. E ele saboreou aquela ratazana com um prazer de dar náuseas a quem ainda é o que ele jamais voltará a ser.
Na imundície do pátio, comendo, com voracidade, um rato; o homem, meu Deus, era um bicho.


* Inspirado em O Bicho, de Manoel Bandeira.

ANJO TATUADO

Sua figura causava, inevitavelmente, a mesma reação nas pessoas. Os olhares se fixavam nos seus trajes, sempre escuros e sombrios, no seu andar meio de banda, como se estivesse sendo vigiado ou vigiando alguém. Era, por natureza, um notívago e sair à luz do dia não lhe fazia bem para os olhos com fotofobia e nem para o humor. Também não combinava com as suas vestes. Assim sendo, é normal que esta história se passe entre o por e o nascer do Sol.
O relógio passava pouco da hora da Ave-Maria quando ele acabou de almoçar, vestiu uma calça e uma T-short pretas, calçou suas botas de couro cru e colocou o seu blusão marrom, já um tanto desgastado no colarinho e nos cotovelos, e partiu para mais uma noite solitária.
Caminhava lentamente pela pequena cidade, mais uma vez como se fosse um imã de olhares. Aquilo não o incomodava (pelo menos, não mais), mas acabava por deixá-lo sem saber para onde olhar, uma vez que era a timidez personificada. Assim, para se distrair, ia tateando plantas, grades, muros - tudo que atravessasse o seu caminho. Talvez o termo correto não fosse tatear, já que tocava as coisas como se acariciasse o rosto de bebê com uma pétala de rosa.
Foi aquilo que chamou a atenção dela. Acostumada com a convivência de rapazes extrovertidos, mais jovens e atléticos, estranhou aquela figura esquálida a circular sozinha e silenciosa pelas ruas centenárias, a bebericar vodka na única e exclusiva companhia dos seus pensamentos. Há muito ela não conseguia olhá-lo sem sentir um arrepio que lhe eriçava a nuca.
Agora estava ali, a menos de um passo daquela presença enigmática. E não sabia como agir, o que dizer, para onde olhar. Sentia-se adolescida, mais que quando tinha espinhas no rosto e seu coração estava certo da paixão que o tomava. No entanto, aquela presença estava muito prematuramente ao seu lado; não estava preparada.
Ao aproximar-se do balcão para pedir cigarros, deu de frente com ele, que se virava, vindo do caixa do bar. O encontro dos olhares durou poucos segundos, porém teve a profundidade de uma fossa oceânica. Não conseguia falar; nem se mexer. Pela primeira vez o viu sorrir. Um sorriso quase infantil. Sorriu, tocou o seu rosto com aquele jeito de quase não tocar, acendeu um cigarro e saiu.
Aquele toque marcou o seu rosto, seus pensamentos, seu coração e sua alma. Era uma tatuagem invisível que jamais haveria como ser retirada. Agora ela tinha certeza que precisava conhecer aquele estranho que deixou o seu toque por todos os cantos dos seus caminhos. Ele havia conquistado a noite, a cidade e ela.
Deitado, sozinho, na sua cama, ele chorava suavemente, com um medo contido. Depois de tanta fuga, tanta saudade, tanta vodka, tantas noites, o maldito destino havia, novamente, cruzado o seu caminho com o de um anjo. O único problema é que, por serem alados, os anjos voam e se vão. Fechou os olhos, dormiu e sonhou que era feliz.

A LUA E A CIDADE

A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o mar, embora distasse uns seis quilômetros.
Mentalmente, cantarolava um trecho da música de Rita Lee: “As luzes da cidade, não chegam às estrelas, sem antes me buscar...”. Amava música, mas havia tempo que não se animava a por um CD para tocar.
Quando descobriu que Zélia Duncan havia regravado aquela canção, não hesitou em comprar o álbum. Gostou da gravação, embora ainda preferisse a original, que guardava, zelosamente, em um compacto duplo.
“Num apartamento, perdido na cidade, alguém está tentando acreditar que as coisas vão melhorar...”. Aquela frase caia-lhe como uma luva. Ele, realmente, se esforçava para tentar acreditar numa melhora. No entanto, a desesperança teimava por rondar-lhe a vida, a alma. “E, na medida do impossível, tá dando pra se viver...”.
Desde cedo a canção não lhe saia da cabeça e, cada vez mais, lhe tomava as entranhas físicas e emocionais. “O amor é imprevisível como você... E eu... E o céu...”. Apesar de gostar tanto dela, aquela presença ininterrupta já o estava irritando.
A lua boiava no infinito estrelado e, abaixo dele, a cidade dormia tranqüila. Dali, da janela do sétimo andar, ele podia vislumbrar, até mesmo, o amor, embora distasse uns seis meses.
Mentalmente, continuava a ouvir Rita e Zélia cantando sem parar: “Conquistando o céu, desprezando o chão...”. Havia algo para ser conquistado, porém, fugia-lhe o que poderia ser. Conquistar o quê?
E por que aquela música não lhe abandonava? Que mensagem havia naquela letra da titia Lee? O que ele não decodificava? Olhando a lua a boiar e a cidade a dormir, passava mais uma noite insone.
No meio da madrugada, após repassar, por dezenas de vezes aquela letra de música, conseguiu, finalmente, entender o que ela lhe queria falar. Agora a mensagem estava clara! Agora ele sabia o que ainda podia ser conquistado.
Não era ela, a letra da música, a quem ele deveria se apegar. O que trazia a conquista final, a conquista da liberdade e da paz, era o título!
Olhou a lua e a cidade, apagou o cigarro no cinzeiro e sorriu pela derradeira vez. Boiou no espaço, como a lua e dormiu em paz na cidade tranqüila. “Da janela do sétimo andar...”.
Ah, sim: a música se chama “Lá vou eu”.

Para Aroldo Daniel dos Santos, com saudade!

MANTO DE PAZ

Ler já não interessava mais. Todos os livros estavam desinteressantemente iguais. Zappear os canais da TV também estava muito chato. Nenhum programa tinha algo a acrescentar. O cinzeiro já estava abarrotado de filtros dos cigarros refumados. Nada fazia sentido.
Os pensamentos se desorganizavam em livres associações, desassociadas de qualquer parâmetro lógico. Nem a solidão era mais companheira nas noites insones. Nem mesmo a insônia ou a noite lhe faziam companhia.
Havia, no turbilhão de pensamentos, um flash recorrente, uma idéia renitente, que teimava em se mostrar com uma constância insuportavelmente nítida. A idéia da morte se mostrava como uma solução viável. Ela passou a dominar a mente, a solidão, a noite.
Como não havia mais nada a fazer, ele passou a dedicar-se a criar situações para a própria morte. Apesar de não temer a dor (até mesmo ignorava-a em muitos momentos), preferia os métodos mais imediatos. Um tiro seria perfeito; mas não possuía armas de fogo. Um sepuku, ritual japonês, seria interessante; mas não possuía espada para o harakiri. Pular da janela era inviável, dado aos apenas dois metros até o solo. Enforcamento também, uma vez que também não tinha corda.
E assim, imaginando, planejando, recobrou o raciocínio lógico. Foi a sua perdição. A junção racional das idéias o fez buscar um motivo. Não havia motivo lógico. E a morte se afastou lentamente dos seus devaneios.
Veio a manhã, veio o Sol, veio a hora de trabalhar. Tomou banho, vestiu-se e foi para a rotina de mais um dia a mais. Até a noite voltar, teria, novamente, que fingir que a vida era a coisa mais interessante que ele conhecia. Afinal, como os seus clientes se comportariam se ele confessasse o seu amor, ainda platônico, pela morte e seu manto de paz?

MANTO DE PAZ II

Lutava com a fúria de um animal ferido e sabia que não poderia cessar, um segundo sequer, de travar esta batalha inglória. Não poderia piscar os olhos; teria que estar sempre alerta contra o inimigo, pois este saberia aproveitar qualquer instante de distração.
Aquela luta o minava por dentro, mas, externamente, mostrava um vigor de infante. Era extremamente necessário demonstrar que estava firme, atento, pronto para reagir a qualquer ataque. Fazia-se mister que, não somente o inimigo, mas todos, principalmente aqueles a quem amava, vissem nele o sorriso que aprendera na infância e que, por anos a fio, foi a coisa mais bonita que pôde oferecer. Sorria não apenas com os lábios, mas com toda a face, especialmente com o olhar.
Aquele olhar, que sempre falou quando ele silenciava a voz, que sempre mostrou toda a verdade que havia no seu âmago, agora tinha que transmitir o inverso do sentimento; tinha que exercitar a mentira que garantiria a paz aos seres que amava e a dúvida àquele inimigo audaz.
Ele fazia o possível para manter-se atento. Evitava até mesmo dormir. E mesmo quando o sono o arrebatava, lembrava do ensinamento paterno: “Quando os amigos não são certos, um olho fechado e outro aberto”. O inimigo era também o melhor amigo. O combate era um paradoxo entre amor e ódio, afastar e atrair, agredir e seduzir.
Os arroubos que aquelas batalhas provocavam, estavam transformando-o em uma criatura que ele mesmo desconhecia. E, aos poucos, ele foi se afastando cada vez mais de si mesmo. Agora já não sabia mais como seguir a sua guerra particular, mas tinha certeza que, perdendo ou ganhando, o seu destino seria o mesmo: o reencontro com a paz.

O HOMEM INVISÍVEL

A tênue linha entre o amor e o ódio servia-lhe como caminho. Vivia nesta corda bamba com a desenvoltura de um pássaro no ar: leve... pleno. Não temia cair para qualquer dos lados. Já nada mais lhe importava em relação à direção a ser tomada. Andava a esmo, à toa. Nau sem rumo, ia à deriva, ao sabor das brisas, dos ventos, das tempestades.
Por ser tão etéreo n’alma, fundia-se e confundia-se com os dias e as noites. Mimetizava-se às paisagens e sumia de todos. Se estava, não era visto; se falava, não era ouvido; se tocava, não era sentido. Era mais um espectro que um homem. Sabia-se não ser nada do que havia sido.
Não fazia novos amigos e já não era lembrado pelos amigos de outrora. Gostava disso. Não ser saudade nos lugares onde viveu. Demorou, mas conseguiu apagar a sua existência. Desfez os feitos, desplantou qualidades e defeitos... e sumiu! Não fisicamente, pois estava ali, vagando; mas, como se houvesse um universo paralelo, ninguém notava o seu ir e vir.
Ele mantinha-se vivo pelos simples hábito de estar vivo. Acostumado a andar no arame entre o ódio e o amor, a fronteira entre a vida e a morte surgia-lhe tão igual que era tratada com o mesmo desdém. No âmago deste ser amorfo, só uma réstia de sentimento mantinha a claridade que lhe permitia, vez em quando, sorrir mecanicamente: a realização de um sonho pueril, por tortuosos caminhos, havia, finalmente, sido efetivada. Estava invisível!

PRECISÃO

Voltou como se nunca houvesse partido. E, assim, desembarcou na minha vida. Na verdade, nunca havia saído dela. Habitava cada canto da nossa cidade, da nossa casa, nosso quarto, nossa cama, meu peito, minha alma. Apenas tornou-se, de novo, matéria. O que era um misto de sombras e saudades, fazia-se real.
Quanto tempo havia desde a sua ida? Não consigo precisar. Era preciso não dar atenção ao calendário, ao relógio, ou cairia no abismo dos segundos, de onde não conseguiria enxergar luz que me mantivesse em lucidez. Contaria cada um deles, tornando-os angústia e solidão, não apenas sombras e saudades.
Mas, agora, sombras e saudades se fizeram matéria, como se nunca houvesse partido. Como planejei gestos, palavras, sentimentos! Nada executei. A rigidez de uma estátua catatônica assumiu músculos, tendões, sentidos. De repente, então, explodiu em mim todo o desejo acumulado neste tempo precisado que não pude precisar: beijos, abraços, afagos, olhares; toques que pareciam surgir como para testemunhar e confirmar aquela presença.
Mais uma vez precisei não precisar o tempo e fiquei de encontro àquele corpo pelas ruas da nossa cidade, através da nossa porta, pela nossa sala, nosso corredor, nosso quarto. E, junto com aquele corpo, afundei nosso colchão, fiz tremer nossa cama como Richter jamais iria mensurar. Arranquei das entranhas todo prazer que adormecera com o tempo impreciso.
Depois do preciso impreciso amor, levantei-me da cama e fiz o que precisava ser feito: peguei as malas previamente arrumadas e saí. Quando eu voltaria? Não saberia precisar; nem seria preciso.