quinta-feira, 29 de março de 2007

MANTO DE PAZ II

Lutava com a fúria de um animal ferido e sabia que não poderia cessar, um segundo sequer, de travar esta batalha inglória. Não poderia piscar os olhos; teria que estar sempre alerta contra o inimigo, pois este saberia aproveitar qualquer instante de distração.
Aquela luta o minava por dentro, mas, externamente, mostrava um vigor de infante. Era extremamente necessário demonstrar que estava firme, atento, pronto para reagir a qualquer ataque. Fazia-se mister que, não somente o inimigo, mas todos, principalmente aqueles a quem amava, vissem nele o sorriso que aprendera na infância e que, por anos a fio, foi a coisa mais bonita que pôde oferecer. Sorria não apenas com os lábios, mas com toda a face, especialmente com o olhar.
Aquele olhar, que sempre falou quando ele silenciava a voz, que sempre mostrou toda a verdade que havia no seu âmago, agora tinha que transmitir o inverso do sentimento; tinha que exercitar a mentira que garantiria a paz aos seres que amava e a dúvida àquele inimigo audaz.
Ele fazia o possível para manter-se atento. Evitava até mesmo dormir. E mesmo quando o sono o arrebatava, lembrava do ensinamento paterno: “Quando os amigos não são certos, um olho fechado e outro aberto”. O inimigo era também o melhor amigo. O combate era um paradoxo entre amor e ódio, afastar e atrair, agredir e seduzir.
Os arroubos que aquelas batalhas provocavam, estavam transformando-o em uma criatura que ele mesmo desconhecia. E, aos poucos, ele foi se afastando cada vez mais de si mesmo. Agora já não sabia mais como seguir a sua guerra particular, mas tinha certeza que, perdendo ou ganhando, o seu destino seria o mesmo: o reencontro com a paz.

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