quinta-feira, 29 de março de 2007

MANTO DE PAZ

Ler já não interessava mais. Todos os livros estavam desinteressantemente iguais. Zappear os canais da TV também estava muito chato. Nenhum programa tinha algo a acrescentar. O cinzeiro já estava abarrotado de filtros dos cigarros refumados. Nada fazia sentido.
Os pensamentos se desorganizavam em livres associações, desassociadas de qualquer parâmetro lógico. Nem a solidão era mais companheira nas noites insones. Nem mesmo a insônia ou a noite lhe faziam companhia.
Havia, no turbilhão de pensamentos, um flash recorrente, uma idéia renitente, que teimava em se mostrar com uma constância insuportavelmente nítida. A idéia da morte se mostrava como uma solução viável. Ela passou a dominar a mente, a solidão, a noite.
Como não havia mais nada a fazer, ele passou a dedicar-se a criar situações para a própria morte. Apesar de não temer a dor (até mesmo ignorava-a em muitos momentos), preferia os métodos mais imediatos. Um tiro seria perfeito; mas não possuía armas de fogo. Um sepuku, ritual japonês, seria interessante; mas não possuía espada para o harakiri. Pular da janela era inviável, dado aos apenas dois metros até o solo. Enforcamento também, uma vez que também não tinha corda.
E assim, imaginando, planejando, recobrou o raciocínio lógico. Foi a sua perdição. A junção racional das idéias o fez buscar um motivo. Não havia motivo lógico. E a morte se afastou lentamente dos seus devaneios.
Veio a manhã, veio o Sol, veio a hora de trabalhar. Tomou banho, vestiu-se e foi para a rotina de mais um dia a mais. Até a noite voltar, teria, novamente, que fingir que a vida era a coisa mais interessante que ele conhecia. Afinal, como os seus clientes se comportariam se ele confessasse o seu amor, ainda platônico, pela morte e seu manto de paz?

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