quinta-feira, 29 de março de 2007

O HOMEM INVISÍVEL

A tênue linha entre o amor e o ódio servia-lhe como caminho. Vivia nesta corda bamba com a desenvoltura de um pássaro no ar: leve... pleno. Não temia cair para qualquer dos lados. Já nada mais lhe importava em relação à direção a ser tomada. Andava a esmo, à toa. Nau sem rumo, ia à deriva, ao sabor das brisas, dos ventos, das tempestades.
Por ser tão etéreo n’alma, fundia-se e confundia-se com os dias e as noites. Mimetizava-se às paisagens e sumia de todos. Se estava, não era visto; se falava, não era ouvido; se tocava, não era sentido. Era mais um espectro que um homem. Sabia-se não ser nada do que havia sido.
Não fazia novos amigos e já não era lembrado pelos amigos de outrora. Gostava disso. Não ser saudade nos lugares onde viveu. Demorou, mas conseguiu apagar a sua existência. Desfez os feitos, desplantou qualidades e defeitos... e sumiu! Não fisicamente, pois estava ali, vagando; mas, como se houvesse um universo paralelo, ninguém notava o seu ir e vir.
Ele mantinha-se vivo pelos simples hábito de estar vivo. Acostumado a andar no arame entre o ódio e o amor, a fronteira entre a vida e a morte surgia-lhe tão igual que era tratada com o mesmo desdém. No âmago deste ser amorfo, só uma réstia de sentimento mantinha a claridade que lhe permitia, vez em quando, sorrir mecanicamente: a realização de um sonho pueril, por tortuosos caminhos, havia, finalmente, sido efetivada. Estava invisível!

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