quinta-feira, 29 de março de 2007

PRECISÃO

Voltou como se nunca houvesse partido. E, assim, desembarcou na minha vida. Na verdade, nunca havia saído dela. Habitava cada canto da nossa cidade, da nossa casa, nosso quarto, nossa cama, meu peito, minha alma. Apenas tornou-se, de novo, matéria. O que era um misto de sombras e saudades, fazia-se real.
Quanto tempo havia desde a sua ida? Não consigo precisar. Era preciso não dar atenção ao calendário, ao relógio, ou cairia no abismo dos segundos, de onde não conseguiria enxergar luz que me mantivesse em lucidez. Contaria cada um deles, tornando-os angústia e solidão, não apenas sombras e saudades.
Mas, agora, sombras e saudades se fizeram matéria, como se nunca houvesse partido. Como planejei gestos, palavras, sentimentos! Nada executei. A rigidez de uma estátua catatônica assumiu músculos, tendões, sentidos. De repente, então, explodiu em mim todo o desejo acumulado neste tempo precisado que não pude precisar: beijos, abraços, afagos, olhares; toques que pareciam surgir como para testemunhar e confirmar aquela presença.
Mais uma vez precisei não precisar o tempo e fiquei de encontro àquele corpo pelas ruas da nossa cidade, através da nossa porta, pela nossa sala, nosso corredor, nosso quarto. E, junto com aquele corpo, afundei nosso colchão, fiz tremer nossa cama como Richter jamais iria mensurar. Arranquei das entranhas todo prazer que adormecera com o tempo impreciso.
Depois do preciso impreciso amor, levantei-me da cama e fiz o que precisava ser feito: peguei as malas previamente arrumadas e saí. Quando eu voltaria? Não saberia precisar; nem seria preciso.

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